E a falta de tempo continua.

E a falta de tempo continua...


Vivemos numa cultura do preenchimento dos espaços vazios. Temos que preencher nosso tempo para “não perder tempo”. Temos, até uma premissa de que “tempo é dinheiro”.


Neste momento de pandemia, o isolamento social, a diminuição de algumas atividades, menos tempo nos trânsitos das grandes cidades e maior tempo em casa, nos leva a imaginar sobre a possibilidade de mais tempo livre. Mas observamos o contrário, estamos mais sobrecarregados e continuamos sem tempo.


Antes da pandemia não tínhamos horário livre e agora com a pandemia, também não. Antes com filhos nas escolas a vida era corrida e agora com os filhos em casa piorou. Antes não tinha hora para sair da empresa e agora, da mesma forma, prolongamos a jornada de trabalho. Onde está o problema?


É muito característico do comportamento humano a necessidade de controlar tudo, o que é externo a nós. Como não conseguimos, precisamos encontrar culpados por tudo aquilo que nos acontece – é o tempo, o filho, o chefe, o trânsito, o marido e agora o vírus.


O vírus vem para nos escancarar – “não temos controle de nada que está fora de nós”.

Então, a alternativa que arrumamos nessa quarentena (e como sempre foi) é mais uma vez nos sobrecarregar para “não ter tempo”.


Muito bem colocado por Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, “a gente se queixava do automático, mas ele encobria o fato de que, quando a gente não está no automático, tem que tomar decisões. Pode ser perturbador.”


Dessa forma, nos deparamos com um grande paradoxo da existência: estamos, assim como antes da quarentena, pesados como uma esponja, absorvendo coisas. Até nossas atividades de descanso mandam informações para o nosso cérebro trabalhar. O maior “negócio” hoje em dia é acumular conhecimento e informações; mas se estamos numa época em que sabemos tanto, por que tantos adoecimentos psíquicos?


Estamos pesados como uma esponja encharcada, mas fazemos de tudo para enche-la mais de água. Ocupamos até com algo que seja sem sentido para nós, para “não perder tempo”.


Na verdade, eu acredito, que tudo isso é para não olharmos para nossos pensamentos e sentimentos. Para não reconhecermos o quanto somos vulneráveis e que certezas não existem.


Ainda citando Vera Iaconelli – “são nesses momentos em que não há nada programado e em que você se permite não fazer nada que pode surgir algum “diálogo interno”, de escutar um desejo, de ter que formular algo e entrar em contato contigo mesmo”.


A questão é que é mais fácil olhar para o outro, não é mesmo? Mas e agora que olhamos para o vírus e pouco podemos fazer, além da higiene básica e isolamento social?


Minha dica para este momento é também para as nossas vidas.


O que é prioridade neste momento para mim? Trace esse objetivo. Depois, se tem algo que me incomoda (que estou pensando muito e não me deixa bem), está dentro do meu controle a resolução? Se a resposta for não - qual a utilidade de se preocupar com algo que não está dentro do meu controle? Se a resposta for sim - fazer algo a respeito disso será construtivo para aquele objetivo que eu quero alcançar?


Vamos tirar esse tempo para reflexão, para “o nada”, para meditação, para observar a nossa respiração, para reparar como funcionamos na vida e como lidamos com as dificuldades.


Essa atitude nos conduz ao nosso mundo interno e quando chegamos até ele saberemos escolher o que vamos absorver ou não e não ficamos tão pesados.


Camila Ribeiro Lobato

Psicóloga/ Psicoterapeuta Sistêmica

Atendimentos individual, casal e famílias

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